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segunda-feira, 1 de junho de 2015

EMPREENDEDORISMO:
um estudo de caso no Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Londrina (SB/UEL)

Postado por:
Osny Francisco Terciotti
Bibliotecário responsável pela Divisão de Circulação do SB/UEL
Rosangela Moreira Lima
Bibliotecária da Divisão de Processos Técnicos do SB/UEL


O discurso de muitos profissionais defende que o bibliotecário deve adequar seu perfil às necessidades atuais, agindo e pensando por si de forma criativa, preditiva e com liderança e atuando como empreendedor. Pressupõe que ele tenha capacidade de delegar, que procure constante inovação, que se adapte facilmente a mudanças e que tenha capacidade de decisão rápida e objetiva (DRUCKER, 1987).
Neste artigo, delinear-se-á um perfil empreendedor com a aplicação de ideias inovadoras a uma realidade comum e característica do contexto em questão, pois tem-se uma realidade em que diversos materiais como livros e documentos estão propensos às deteriorações e danos causados pelo descuido dos usuários, manipulação inadequada, vandalismo. Portanto, precisa-se desenvolver meios de preservar aquilo que já se tem e que é tão característico das bibliotecas.
O termo empreendedorismo, originado na França, século XII, denominava originalmente os coordenadores das operações militares. Conforme Dornelas (2005), a definição de empreendedor aparece atrelada à ideia de inovação, desde a introdução de novos produtos e serviços até a criação de novas formas de organização, ou ainda, pela exploração de novos recursos e materiais. Valle e Santos (2004) destacam que no campo da Biblioteconomia as ideias empreendedoras têm ganhado força, por meio da gestão que focaliza a inserção da criatividade, o que gera, conseqüentemente, inovação. O empreendedorismo nesse campo parte de informações que necessitam e podem ser transformadas em produtos ou serviços.
Conforme Honesko (2002) os profissionais que atuam em bibliotecas universitárias paranaenses, demonstraram conhecimento teórico sobre o empreendedorismo e entendimento da importância de uma gestão empreendedora em bibliotecas. Contudo, esses profissionais ainda não colocam em prática ações empreendedoras, pois aliam essa prática a avanços tecnológicos e novidades. Resende (2006, p.35) considera que empreender não se trata unicamente de inovação no sentido de criação de produtos e serviços novos, mas pode ser aplicado também à renovação e aprimoramento de situações já existentes.
O Sistema de Bibliotecas da UEL tem como “missão promover o acesso, a recuperação e a transferência da informação para toda a comunidade universitária, de forma atualizada, ágil e qualificada” [...] (UEL, 2009, p.1).
A circulação de materiais de informação, conforme argumenta Rowley (1994), relaciona-se a uma das funções intrínsecas à biblioteca: a disponibilização dos documentos. Para essa autora, os usuários devem ter acesso ao acervo imediatamente ou o mais rápido possível após se expressar uma demanda. Nesse sentido, a Divisão de Circulação da Biblioteca Central da UEL tem como missão: Recuperar, disseminar a informação, disponibilizar o material bibliográfico para consulta e empréstimo, dando suporte ao ensino e pesquisa [...], bem como restaurar os materiais bibliográficos para que os mesmos possam retornar ao acervo e serem disponibilizados novamente para uso. (BIBLIOTECA CENTRAL, 2003, p.1).
Nesse artigo o foco é o trabalho realizado pela Oficina de Encadernação, na Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina, relatado doravante como BC/UEL.
Nesse contexto, entra o presente objeto de estudo: a Oficina de Encadernação da BC/UEL. Os primeiros registros encontrados sobre recuperação de documentos na BC/UEL datam de 1983, quando a Divisão de Processos Técnicos iniciou a estruturação da Oficina de Encadernação, com o objetivo de restaurar e/ou encadernar todo o material danificado da biblioteca. Esse serviço contava com a colaboração de uma auxiliar de biblioteca. A oficina ocupava uma área junto à Divisão de Processos Técnicos.
O volume de livros para restauração crescia a cada ano e em 1985 já havia uma pendência de 875 volumes aguardando encadernação/restauração. Em 1986 a oficina foi transferida para uma sala do piso inferior da biblioteca, pois não havia mais espaço para guardar os livros danificados. A oficina passou a ter outros problemas: além do acúmulo de livros pendentes, havia somente um funcionário que executava o serviço de encadernação para tamanha demanda.
No final de 1992, já havia um acúmulo de mais de 4.500 livros à espera de restauração/encadernação. Como alternativa para diminuir a quantidade de livros na oficina, em 1993 o Sistema de Bibliotecas realizou a campanha “Adote um livro”, que propiciou a restauração de 2.070 volumes com o patrocínio de empresas externas. Em 1994 houve a contratação de outro restaurador bibliográfico, passando a oficina a contar com dois servidores no seu quadro funcional.
Até 1999 o serviço de encadernação foi realizado por dois servidores e, eventualmente, com recursos do Sistema de Bibliotecas para a terceirização deste serviço (encadernação externa); porém, devido à demanda de uso da coleção o serviço de encadernação sempre aumentou, ocorrendo o acúmulo de livros aguardando reparos/conserto.
Em 2000, por meio de convênio de prestação de serviço firmado entre a UEL/Biblioteca Central e a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Universidade Estadual de Londrina (FAUEL), ficou acordado que parte da receita arrecadada com as multas seria destinada para a preservação do acervo. Até a presente data o Sistema de Bibliotecas utiliza este recurso para recuperar os livros danificados e, concomitantemente, executa o serviço na oficina por um funcionário.
É importante destacar também que quando se corre um risco calculado, ou seja, quando se está empreendendo, é comum agir de forma a executar melhor as coisas, mais rapidamente ou mais barato. Restaurar um livro fica mais barato que a compra de um novo exemplar, poupando-se, além de dinheiro, tempo, visto que o livro volta às estantes mais rapidamente, evitando-se pedidos de compra, licitações, entre outros entraves burocráticos. Por fim, a publicação pode estar esgotada, impedindo a compra de um novo exemplar, sendo esta mais uma vantagem da restauração.
Outra atitude empreendedora é a utilização de pessoas-chave como agentes para atingir seus próprios objetivos. A biblioteca fez isso, quando terceirizou o serviço de restauração utilizando a receita obtida com as multas por atraso, solucionando, assim, a escassez de mão de obra, visto que os dois restauradores não estavam dando vazão à quantidade de material a ser restaurado. Dessa forma, manter a quantidade e a qualidade do acervo é primordial para a Instituição. Nesse sentido, o empreendimento exposto neste trabalho restaurou e vem restaurando não só obras do acervo, mas também formas de ver o trabalho, o papel dos colaboradores, a importância da inovação.
A seguir, apresenta-se no quadro 1, um comparativo do volume de material encadernado no período de 1983 a 1999 e a partir de 2000 até 2014, com recursos destinados à recuperação de livros proveniente de multa de usuários.

Quadro 1 – Volume de material encadernado
Período
Livros Encadernados/Restaurados pelo Sistema de Bibliotecas da UEL
Média de Livros Encadernados por Ano
1983 a 1999
12.327
725
2000 a 2014
35.075
2.338
Fonte: BC/UEL

Neste quadro observa-se que a quantidade de livros recuperados por ano até 1999 era de aproximadamente 725 volumes. Com o uso dos recursos financeiros a partir do ano de 2000, a média passou a ser de 2.338 volumes por ano, ratificando a essência do empreendedorismo em bibliotecas.

REFERÊNCIAS
BIBLIOTECA CENTRAL. Divisão de Circulação. Relatório de atividades: 2002. Londrina, 2003.
DORNELAS, J. C. A. Empreendedorismo: transformando ideias em negócios. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.
DRUCKER, P. Inovação e espírito empreendedor (entrepreneurship): práticas e princípios. 5. ed. São Paulo: Pioneira, 1987.
HONESKO, A. Empreendedorismo em bibliotecas universitárias. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE BIBLIOTECAS UNIVERSITÁRIAS, 12., 2002, RecifeAnais... Recife: Ed. da Universidade Federal de Pernambuco, 2002.
RESENDE, J. B. O bibliotecário empreendedor e o mercado de informação no Distrito Federal. 2006. Monografia (Curso de Bacharelado em Biblioteconomia) – Universidade de Brasília, Brasília. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp. Acesso em: 20 set. 2009.
ROWLEY, J. Informática para bibliotecas. Brasília: Briquet de Lemos, 1994.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA. Sistema de Bibliotecas. Histórico - missão. Disponível em: http://www.uel.br/bc. Acesso em: 20 set. 2009.

VALLE, L. M. B.; SANTOS, R. Reunião nacional de bibliotecas biomédicas e especializada em odontologia: uma experiência. 2004. Disponível em: http://www.ndc.uff.br/textos/luciana_valle_reuniao.pdf. Acesso em: 15 nov. 2009.

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